sexta-feira, 11 de março de 2011

"Ethos entrou no vocabulário do teatro com o sentido de personagem. Mascarados, os atores fazem-se personagens. Máscara é morada. Também morada o rosto que a reveste. Se derivarmos anthropos (homem) de anti (diante de) e ops, rosto, o próprio homem se apresenta como alguém que anda de rosto velado. A cadeia de máscaras não termina. O que se esconde atrás da última máscara?"
(SCHÜLER, Donald. Heráclito e seu (dis)curso. Porto Alegre: L&M, 2001, p.179)

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Andam nos 'googlando': e daí!?

Que o mercado tem estratégias que, em última instância, almejam nosso bolso e nos assalta, não é surpresa. Mais sutil, porém, é isso realizar-se sob a égide de atividades tidas inocentemente como "culturais", como o letramento e a literatura. Aventurar-se no grafismo e se dar à leitura das primeiras letras impressas, em quaisquer ambientes, significam adentrar um mundo seleto. Quer seja ele xamânico ou científico. E quando esse filtro por que passamos é redimensionado para o mundo da informação contemporâneo, defrontamo-nos com mais barreiras. As principais delas são a  hierarquização e a segregação realizadas no campo material de nossos aparatos digitais e também a incapacidade, muitas vezes, de adquirir esses bens digitais.
Além disso, algumas interpretações são mal concebidas. Uma delas é atribuir a uma só empresa a responsabilidade pelas mazelas do parco humanismo presente no conteúdo da rede de informação digital. Culpar google.coms de espionar nossos gostos tem a mesma inocuidade de se apontar a indústria fonográfica como modeladora de nosso gosto musical médio. Ambas as acusações são meras constatações da existência de um poder que não tem nada de paralelo, posto que está no cerne da produção cultural moderna.
Assim, por um lado, a informação, da maneira com que é, e por quem é usada no mundo atual, dá o diploma à identidade moderna de uma classe egocentrada e alienada. Quando enfiamos as fuças em um pequeno aparelho que nem sabemos nomear ainda de tão incerta sua utilidade (já foi uma vez telefone) e nos entret(v)emos horas a fio em seus "admiráveis mundos novos", produzimos em nós o mesmo efeito de quando esquecemo-nos ao volante de um carro, distraídos a ponto de fazermos coisas como se estivêssemos na sala de nossa casa.  Por outro lado, as estratégias de mercado de que esse mesmo mundo digital lança mão para submeter o usuário de hoje são velhos e conhecidos "aparatos". Eles rendem nossa atenção e a recrutam para um campo de concentração imaginário, povoado de mais reflexos de nós mesmos, fragmentos autistas da despedaçada individualidade moderna.






segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Ideologia para Althusser

"A ideologia, para ele [Althusser], deriva dos conceitos do inconsciente e da fase do espelho (de Freud e Lacan, respectivamente), e descreve as estruturas e sistemas que permitem um conceito significativo do eu. Estas estruturas, para Althusser, são tanto agentes de repressão quanto são inevitáveis - é impossível escapar das ideologias ou não ser-lhes subjugado.
A ideologia, para Althusser, é a relação imaginária, transformada em práticas, reproduzindo as relações de produção vigentes. Na realização ideológica, a interpelação, o reconhecimento, a sujeição e os Aparelhos Ideológicos de Estado (AIE), são quatro categorias básicas.
Em seu discurso sobre a Ideologia é patente sua preocupação em encontrar o lugar da submissão espontânea, o seu funcionamento e suas conseqüências para o movimento social. Para ele, a dominação burguesa só se estabiliza pela autonomia dos aparelhos (de produção e reprodução) isolados.
O mito do Estado, como entidade incorporada pelos cidadãos e como instituição acima da sociedade, aparece, também no estruturalismo marxista de Althusser sob a forma de "a instituição além das classes e soberana". Assim os Aparelhos Ideológicos do Estado são a espinha dorsal de sua teoria.
A teoria dos Aparelhos Ideológicos de Estado constrói uma visão monolítica e acabada de organização social, onde tudo é rigidamente organizado, planejado e definido pelo Estado, de tal sorte que não sobra mais nada para os cidadãos. Não há mais nenhuma alternativa a não ser a resignação ante o Estado onipresente e absolutamente dominante.
A visão extremamente simplista dos aparelhos ideológicos como meros agentes para garantir o desempenho do Estado e da ideologia atraiu para Althusser as freqüentes críticas de funcionalismo. Isto se deve ao fato de que ele não inclui nas suas preocupações questionamentos, sobre o surgimento desses aparelhos ideológicos e sobre sua lógica, conforme a época. Não há a noção de continuidade histórica e cada fase é uma fase em si, dentro da qual as diferentes instituições se articulam, sempre de forma relativa. Assim a igreja - ou a religião -, por exemplo, não é o resultado de uma sedimentação histórico-cultura de idéias e visões do mundo, trabalho de séculos dos organizadores da cultura; não, a igreja é a instituição e seu funcionamento só é captado dentro da lógica respectiva do momento analisado. A dimensão da "tradição de todas as gerações mortas que oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos" (Marx) desaparece."
(...)
A distinção entre ideologia e ciência, ou filosofia, não é assegurada em definitivo pela "ruptura epistemológica" [a propósito da divisão que o filósofo propõe na obra de Marx]: esta ruptura não é um evento determinado cronologicamente, mas sim um processo. Ao invés de uma vitória assegurada, tem-se uma luta contínua contra a ideologia: "A ideologia não tem história".

(...)
Existe um único Aparelho (repressivo) de Estado, enquanto que existe uma pluralidade de Aparelhos Ideológicos de Estado. Enquanto que o Aparelho (repressivo) de Estado pertence inteiramente ao domínio público, a maior parte dos Aparelhos Ideológicos de Estado remete ao domínio privado [AIEs religiosos (o sistema das diferentes Igrejas), escolar (o sistema das diferentes escolas públicas e privadas), familiar, jurídico, político (o sistema político, os diferentes Partidos), sindical, cultural (Letras, Belas Artes, esportes, etc.), de informação (a imprensa, o rádio, a televisão, etc.)]. Tais instituições privadas podem ser consideradas Aparelhos Ideológicos de Estado, pois a distinção entre o público e o privado é intrínseca ao Direito burguês e o domínio do Estado lhe escapa, estando além do Direito. O Estado (da classe dominante) não é nem público e nem privado, sendo a condição de distinção entre estes dois últimos. Não importa se as instituições que compõem os Aparelhos Ideológicos de Estado são públicas ou privadas, o que importa é o seu funcionamento e instituições privadas podem funcionar perfeitamente como Aparelhos Ideológicos de Estado. Gramsci também chegou a essa conclusão.
(...)
O Aparelho Repressivo de Estado funciona predominantemente através da violência e secundariamente através da ideologia, enquanto que os Aparelhos Ideológicos de Estado funcionam predominantemente através da ideologia e secundariamente através da violência, seja ela atenuada, dissimulada ou simbólica. Os Aparelhos Ideológicos de Estado moldam por métodos próprios de sanções, exclusões e seleções não apenas seus funcionários, como também as suas ovelhas."





at: http://pt.wikipedia.org/wiki/Louis_Althusser#Pensamento (grifo, itálico e negrito no texto são nossos)













segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Tecnocentria 2

Voltemos ao tema do suposto tecnocentrismo atual. Aos exageros e mitos criados em torno dele. Com efeito vivemos, no quesito informação principalmente, uma espécie de "tecnoalfabetismo" ou "tecnoletramento" sem os quais julga-se não ser possível se conquistar a passagem para um "mundo de oportunidades". Entre esse novo aprendizado e a assimilação da antiga escrita tradicional, há diferenças fundamentais.
A primeira dessas diferenças é o fato de a capacidade de digitalização da informação não se transmitir a espectadores ociosos através de traços em paredes de cavernas. É necessário o aprendizado do domínio de um suporte que compreende capacidade de (re)produzir símbolos em velocidade compatível com a demanda por dinamismo dos dias de hoje. E a plena utilização desse aparato técnico ainda é atributo de usuários educados ou supraeducados em seu manuseio.
O segundo aspecto desse novo aprendizado cultural quando comparado à simbolização mais manual é a sutileza com que ele permeia as tribos ou mobs. Na escrita tradicional, as gerações são atavicamente sentenciadas umas às outras por fortes laços de domínio cultural ou político. Ilustra-se isso na monodigitação de poemas desenhados na areia de alguma praia pagã para fins de colonização linguística. Atualmente, o apelo mais puramente mercadológico reveste forma e conteúdo a serem transmitidos. Daí que material e ser, aparelho e usuário, consomem-se em uma espiral infinita de reificação cujas consequências notam-se em 'patologias' contemporâneas.
As compactações, portabilidades e acessabilidades mil da aclamada tecnocentria dos dias atuais fazem pouco mais que exacerbar um sistema de dominação antigo. Esse sistema já foi confundido com 'humanização das letras', quando se achava que a educação escrita tradicional veiculava tão somente valores clássicos. A nova roupagem tecnocêntrica desses valores parece ter se transformado no 'se vira nos trinta' e no fetichismo tecnológico do indivíduo contemporâneo.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Olha quem vem lá... de longe!

Nossa realidade está cada vez mais parecida com nossos sonhos. E não é devido a avatares e nem ao absurdo do cotidiano urbano. Nossas operacionalidades estão em crise. O lastro de lógica que pautava nossas vidas se desvanece juntamente com a demolição do império do capital. A nanoideologia das últimas novidades japonesas vai se calar brevemente ante a macro reestruturação de seus vizinhos asiáticos chineses. Não que para nós o sistema econômico chinês represente alguma revolução. Mas os paradigmas serão outros. A distância cultural, o desconhecimento, a apreensão por nossa parte da mercê chinesa já bastam para desestruturar nosso já combalido sistema. Novamente: não que o chinês represente alguma salvação. Mas o fato de se instalar em nossas vidas terá o impacto de orfandade e apadastramento abruptos ao quais nenhuma criança responde bem. Talvez uma grande tsunami vermelha afogue a pequena maré vermelha que vem cobrindo a nós brasileiros lentamente há cerca de uma década.
No mundo das linguagens, que é o nosso mundo real, o espírito de completude e feitura atravessam uma crise de proporção. A tecnologia veio nos dizer que o imediato e, seu primo, o inacabado, também apelidado de postergado ou 'feito para ser esquecido', são a regra. Taí a crise de proporção. Não sabemos onde colocar o diminuto de nossas produções. As artes zipadas uma dentro da outra formam estruturas inapreensíveis. Alguns chamaram isso de pós-modernismo. Mas enquanto o referencial capital nortear fortemente essas produções, não nos desvencilharemos da velha e saudosa crise da identidade moderna que o capital inaugurou e o modernismo consolidou. Apáticos a uma identidade firme, ainda boiamos entre esquizofrenias e mutações. Talvez o dragão chinês seja a renovação representativa de que carecemos em meio ao nosso eterno repetir de conhecidas figurinhas carimbadas. Por outro lado, talvez sejamos nós que o abocanhemos em nossa fagocitose mercantil. Mas uma coisa é certa: o aspecto da tradição chinesa que possa nos interessar não será algo que possamos apreender ou decalcar em uma instalação artística.

Narre aqui também seu primeiro porre...