sábado, 11 de maio de 2013

Descascar laranja

Descascar laranja







(...)

Forjar: domar o ferro à força,
não até uma flor já sabida,
mas ao que pode até ser flor
se flor parece a quem o diga.

(‘O ferrageiro de Carmona’,

João Cabral de Melo Neto)





Repare, mestre das pedras:
descascar laranja também
se limita com seu ofício
e com outros ocupacismos.

É o revirar do fruto ao vento
queda de seu suco em renda.
É despelar na faca-língua
o alimento e o suor das gentes.

Tirar a casca do mundo cão inteira sem lhe ferir as penas.
Rodar nas mãos a coisa nova
velha de novo e vice-versa,
à cria lima sem eira nem beira.

Laranja, gole de sumo à vista,
forma desnudada que mente:
É verdade-bagaço em tiras
cuidadosamente extraída.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Vento Solar



Um sol cor de passado queima as vistas cheias
Ao operador desatento de seu dever
Traz cheiro de tempero mascado de mãe
E lembranças do traçado gasto da coisa infante

Sua mente visa grosso o agora e acura o alheio
Rápida como a agulha solta no palheiro,
inexata como aquele pensamento em vão,
Atordoada sobre esta superfície branca.

Mas para que na fuga do aqui, permaneça
E na espera do que foi, atravesse calmamente
O operador ignora o sol de ontem que o atravessa
E retorna ao presente branco que o alimenta.

Narre aqui também seu primeiro porre...