domingo, 17 de março de 2013

Poema de Rafael Melo

Na gramática da chucha


Aqui na terra do Rei

Todo mundo Xuxa

E verbos não xuxo no insosso

Adjetivos xuxo na carne e moço

Religião não Xuxa na mente

... Nem quero ser perfeita mente

Mas Xuxa não dá na mente

Experiente

Se oriente

Se ocidente

Se acrescente    



in: http://www.facebook.com/#!/rafael.melo.14203544?fref=ts

Globalinguação


Capital que tudo abarca,
barco repleto que passa...
traz imagens, desembota
mentes, barra travessias

E diariamente anuncia
a tragédia sincopada
nas tarefas dessecantes,
nos lazeres sedorentos.

Malabares e moinhos
novos, luminosos, nanos
vêm -trans Orient Express!-
às torres do sol poente...

Ah, caput reinante sempre
aporta seu barco na
mesma terra, mesma mão
donde extrai ideia, sal e sangue!

A Última Viagem do Temeraire

A Última Viagem do Temeraire
William Turner  (óleo sobre tela, 1839)






quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

O Exterminador do Futuro

Em um futuro próximo, as pessoas revolverão ambientes esquecidos à procura do artefato cinema.  Cinema diferente do que se vê hoje. Cinema que não parece um home theater gigante, dilatado dentro de uma sala pequena e vazia. Isso porque elas, as pessoas, sentirão falta do lusco-fusco alaranjado e do reflexo cintilante produzidos pela luz de mercúrio ou carvão que sai da cabine de projeção e que se difunde na poeirinha que os estofados deixam suspensa. Elas, as pessoas, ainda sentirão falta dos passos de um homem pelo corredor e dos estalidos, bateres de tampas, de peças e de engrenagens que vêm da cabine de projeção antes de o filme começar. Ficarão também saudosas da luminosidade fluida e trêmula como luz de vela, que parece acompanhar os movimentos musculares e nervosos mais sutis da respiração uníssona de todas as pessoas imersas naquela atmosfera.

Nostalgia assumida por quem não é, como gostaria, um cinéfilo propriamente dito, o conteúdo das palavras acima sinalizam para a tendência ao resgate da transmissão analógica de mensagens. Há vinte ou trinta anos o suporte analógico de imagens já se encontrava em seus estertores. Mas mesmo assim, ainda rendia bravos impulsos à nossa cultura imagética. Nosso ouvido não é digital. O retorno do vinil às lojas demonstra isso. A maneira pela qual a atual imagem digital, tão admirada por sua resolução, vai conviver (ou não) com o retorno do som analógico é questão que deixaremos para os técnicos. Resta saber se gerações de olhares acostumadas à tela lusco fusco do cinema tradicional cederão definitivamente seu lugar às retinas jovens que cada vez mais assistem a peças fílmicas tal qual veem a realidade física ao redor. Ou se, mais uma vez, assim como estamos fazendo com o som digital, teremos que exterminar o futuro.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

"Chegada" (poema de Elizandra Souza)

CHEGADA

(do livro Águas na Cabaça, 2012)


Se tu viesses me ver nessa noite
Encontraria na porta, um sorriso encanto
Um abraço envolvente como manto
Remédio que afugenta o açoite

Se tu viesses em passos lentos
Entalhando meu rosto em um camafeu
Ouviria todos os conselhos dos ventos
Vagalumeando ou brincando com o breu

Se tu viesses do horizonte belo
Galopando e seguindo o curso do rio
Pontilhando nas estrelas nosso elo
Escutaria o caminho que tanto te assobio





Narre aqui também seu primeiro porre...