quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Descascar laranja

Descascar laranja
colima escrever
desentalá-la do chão
examinar-lhe as manchas
iluminá-la nas mãos

Descascar a laranja
concorre com escrever
rodear-lhe os cantos
dar-lhes caminhos de pião
tirar-lhe a pele: um balão

Descascar laranja
mereja escrever
borrifagens de Musas
estalidos sumarentos
de cantares gotejados

Descascar laranja
alimenta o escrever
alastra suculências
volatiliza essências
de bagaços um dia flor

Descascar laranja
ensaia o escrever
embala conversas
após refeições

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Dois filmes de plástico

Depois que aprendemos a driblar com os dedos da mão e separar os dois filmes de plástico que formam as sacolinhas, querem as tirar de nós. Filmes de cinema não são feitos de plástico. Um deles é de  pouco antes do aparecimento das sacolinhas. É The Graduate (1967). A cena final traz a risada em still do personagem Ben (Dustin Hoffman) ao lado da noiva recém fugida com ele. Devemos continuar visualisando na vida real o que é mostrado nessa cena: a interação estranha do casal contemporâneo. A risada de Ben é a que o futuro bem sucedido no ramo do plástico pode proporcionar a ele. Material  que parece compor a feição plastificada da noiva (Katharine Ross).
Trinta anos após esse filme, outro casal de jovens contempla uma cena numa passagem lírica do épico burguês American Beauty (1998). É o famoso trecho da sacolinha voadora: 



Obviamente, não há no vídeo antevisão artística do pretenso fim das sacolinhas. Qualquer objeto imerso na atmosfera despojada de humanidade criaria o mesmo efeito. Na literatura, a descrição de migalhas de pão sobre a mesa  em Madame Bovary aproxima a solidão da heroína ao isolamento de objetos na entediosa cozinha. Humor e cenário catalisam-se mutuamente. Também a contemplação desse filme dentro do filme nos mostra a crise dos seres da "desfamília" moderna. Seres estanques como mercadorias embutidas em gôndola de  supermercado, agora ao menos livres do duplo filme plástico que os envolvia.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Mar e terra

Mar e terra




Mar existe pra' mostrar

que as gentes são pequenas.

Mar na serra é sereno,

desaba sobre as folhas,

chove e encharca tijolos,

lava e leva calçadas.

Mar e terra dividem

praias bárbaras de helenos

e as de Robinson Crusoe.

Morros desdentados,

águas inquietas:

funde(a)m e afunda(e)m tudo!

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O violão na passarela

Não era passarela de moda
era passarela da roda
da roda viva que pega
na hora cinza que leva.

Os carros passavam sem olhar
os pedestres sem ouvir
ao violão no alto da passarela,
ao cantador da serenata sem janela.

(Di)versifica a trova poeta-dor
dedilha acordes sonhador
na maromba robusta da roda
no meio-aço da vida que não é nossa!

Tudo isso para carros que não chocam
para gentes que não choram
nos s(c)em-sentidos das rotas,
furores da roda.

Sim, vai entreter alguém
vai sem ver ninguém
sem espiroquetar na roda
vai chamar a todos, esse poeta,
a desviar daquela seta.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Verde morto

verde morto ceifado à terra
com lanças gigantes do céu
verde que os olhos apercebiam
é colhido em mãos arredias
verde arado e verde nódua
no cheiro que impinge afora
vai vicejar claro e sem dono
verde morto a vingar outonos
sem o mármore e sem o fogo
sem o nome e sem o novo
vai verter vida aqui na pena
vai sangrar em paz na semente







Narre aqui também seu primeiro porre...