terça-feira, 7 de setembro de 2010

Turbilhão

A enxurrada lodaçenta leva
o gancho da razão e do sentido
e se espalha na baixada do tempo
arrastando raízes e umbigos


Ingenuidade de nossa alma lesa
não aguenta esse turbilhão de ânimos
viris, condicionados tão bem a
se esquecerem nesse mar monolítico


mar passa e deixa resíduos nesta
mão que não opera mais destinos
precipita como um sereno céu
invertido em nossa pouca vida


Crenças resfolegadas e emersas,
nossas carcaças encharcadas brilham
em meio a poeira calcária e sem vento
aguardando que alguma alma viva!

domingo, 5 de setembro de 2010

As coisas que se mexem em mim

As coisas que se mexem em mim
me levam pro passado
Pra quando mais poderiam me levar?
tão sem futuro, so unexpecteded...

As coisas que se mexem em mim
me jogam pra longe
Pra onde mais poderiam me jogar?
tão absorto, cataléptico...

As coisas que se mexem em mim
me dão algum eixo
Que mais poderiam fazer?
elas me põem em pé.

Quando essas coisas em mim
me tragam, me deixo.
É por elas que me faço sentido,
me deito e me levanto, asceta.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Tecnocentria

Falácias em torno do endeusamento da tecnologia da informação incomodam. A última que ouvi foi "tecnocentrismo", referindo-se ao período atual, posterior ao teo- e antropocentrismo. São falácias porque as supostas proezas da tecnologia informativa, por exemplo, são mito. Elas são resultado de tendências comportamentais e sociais geradas dentro do sistema produtivo, do qual a tecnologia é apenas outra consequencia.
Como a mais simples das máquinas, todo instrumental tecnológico atual nos serve como o primeiro atrito de gravetos acendeu a primeira chama do escoteiro das cavernas. No entanto, nenhum byte ligado não significou tanto quanto a centelha do graveto significou para o desenvolvimento do homem. Isso porque as condições sob as quais o aparato informativo é gerado são as do capitalismo administrado, ou seja, as condições de pesquisa e conquista de lucro, mais-valias e vidas para além do que havia no capitalismo industrial dos séculos XVIII e XIX, embora nos demos conta.
Como todo mito, o tecnocentrismo resvala na arte. Versões sci-fi são produzidas e interpretadas à exaustão, contribuindo para (des)vendá-lo, dependendo da natureza da audiência e a ocasião em que são performatizadas. Séries filmográficas não por acaso americanas nos dão exemplos disso. Terminator (Exterminador do Futuro) iniciou-se com convincente perfuração temporal, atribuindo roupagem high tech à inimiga parafernália tecnológica do futuro. Pena que perdeu-se na temática ao longo das exibições até o último número 4. De Matrix a Avatar, transmigrações radicais de espaço-tempo dentro de um mesmo enredo refletem o virtualismo de comunidades de redes sociais internetizadas.
Com efeito, das falácias tecnocêntricas, a mais fantasiosa delas é a da aclamada integração nas redes 'socias' conectadas via internet. Nada mais desintegrante do que criar uma dessas comunidades de mil 'amigos', 'unidos' por interesse dos mais peculariares. Elas e seu conjunto numeroso e fractal refletem o espírito do homem de hoje, para o qual sinais mais superficiais se prestam ao papel identitário, que uma vez pertenceu às noções de etnia e nação.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Cinco ou seis

Cinco ou seis homens empurram um caminhão

As seis ou cinco mulheres que os geraram

não os queriam para empurrar o leve truck

naquela manhã fria


Cinco ou seis moleques e outro caminhão

mais pesado que eles no desfiladeiro

As cinco ou seis crianças deles esperam

seus caminhõezinhos


Cinco ou seis homens na proa do tempo

Cinco ou seis homens c’unhas de cimento

Narre aqui também seu primeiro porre...