terça-feira, 15 de junho de 2010

Cinco ou seis

Cinco ou seis homens empurram um caminhão

As seis ou cinco mulheres que os geraram

não os queriam para empurrar o leve truck

naquela manhã fria


Cinco ou seis moleques e outro caminhão

mais pesado que eles no desfiladeiro

As cinco ou seis crianças deles esperam

seus caminhõezinhos


Cinco ou seis homens na proa do tempo

Cinco ou seis homens c’unhas de cimento

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Estertores

Estertores

Explore as paragens das coisas vãs
das facas trespassadas que não matam
das almas inocentes que se vão
das chagas sentenciosas que saram...

Perceba que a desditosa ronda
a paz convoluta do trabalhador,
e ao artista rende a serena revolta.
Mas que isto conforta todas as dores...

Escrever é cavoucar voz-imagem
de tempo e espaço irreconciliáveis.
É unir pólos iguais de mesmo ímã.

Junte vida e morte numa só viagem,
cunhe moeda de uma só face
a brilhar sob sóis e luas: minha sina!




segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

A infiltração da ideologia

Há tanto ou mais ideologia no ato de acessar a rede mundial de computadores ou “curtir um iPod” quanto no ato de pegar em armas para lutar pelo que se acreditava há cinquenta anos. A aparente diferença no radicalismo nos gestos e atitudes que pautam essas diferentes formas de se expressar ideologicamente ao longo de meio século se explica menos pela mudança na cosmovisão veiculada por doutrinas do que por transformações na intensidade e no ritmo com que o sistema econômico vigente exerce domínio sobre nossas vidas.
Quando vivíamos atmosferas políticas de polaridades e posicionamentos mais claros há algumas décadas, havia sempre a figura do “outro” utópico ou inimigo pairando em nossos cotidianos e em nosso imaginário. Tanto na vida como na arte, havia tinta, espaço e tempo definidos para conceber heróis e vilões extremados e realidades que a visão científica eufórica da época permitia projetar. Essas definições começaram a se dissolver mais completamente no final dos anos 1980 como consequência da entrada em um estágio globalizante do capital administrado. Como verificamos essas transformações?
Primeiramente, pela observação de que hoje as grandes decisões e políticas se fazem por temas e não mais por regiões. Isso também se relaciona com: a aceleração nas transmigrações de culturas, que diminuíram a importância das circunscrições geográficas; com a expansão do acesso a bens materiais que, sendo bastante desigual no contexto da globalização econômica, propiciou maior reivindicação social por parte dos menos favorecidos economicamente; e com a reafirmação e as conquistas de identidades culturais, efeito da sinergia entre as duas situações anteriores.
Em segundo lugar, a abolição de todos os limites e fronteiras, das geográficas à moda das calças sem cós e cintura, significou também a troca de culturas e corpos por um espaço ao sol no mundo da inclusão global das novidades tecnológicas dos prefixos vocalizados da informática (@, e-, i etc). Isso transportou parte da batalha ideológica contemporânea para os restritos ambientes dos que têm acesso à nova tecnologia da informação. A nova guerra ideológica, nano ou virtual, iniciou-se quando espertamente o capitalismo engendrou os mesmos mecanismos reivindicatórios dos excluídos para embandeirar o acesso aos novos bens gerados dentro de seu sistema. Dentre esses bens, o próprio o corpo humano ou partes dele. Ou seja, com as novas tecnologias, foram se forjando novas necessidades e fetiches sem os quais o indivíduo se cria alienado da vida globalizada.
Finalmente, o fato de as identidades culturais se mostrarem hoje tão à baila, reificadas ou não, não diminuiu a intolerância ou o preconceito. Apenas os tornou “não politicamente corretos”. No entanto, a “institucionalização” da discriminação continua patente no acesso restringido à educação e tecnologia da informação, por exemplo. E a atual confusão e sobreposição de antigas dicotomias como liberal/conservador, direita/esquerda, reacionário/revolucionário, bem/mal, se devem a essa imersão e diluição da ideologia nas coisas e no cotidiano do capital informatizado. Elas provocaram o rompimento de barreiras e hierarquias. Mas transformaram o ser em uma porção digitalizada amorfa que somente se recompõe nos restritos ambientes virtuais.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Os sucessos da inclusão "capital"

Os sucessos da inclusão "capital"

Vem da década de 1960, de críticos lúcidos do processo capitalista de exclusão social, como Sartre e Fanon, por exemplo, a questão da “inclusão social sem inclusão cultural”, hoje muito rediscutida. Ocorre que ambas “inclusões” são atualmente a mesma coisa lastreada pelo capital e mediada por novos e abundantes recursos materiais e tecnológicos.
Todas as áreas e lugares da vida, das reivindicações sociais das minorias mais apagadas do cenário social à Ecologia, têm seu quinhão a cobrar do meio produtivo-tecnológico contemporâneo: é o resultado da explosão de bens gerados nesse sistema, o que desbastou a burguesia de seus privilégios tradicionais e espalhou para as camadas sociais concêntricas formas novas de usufruto. Assim, exigências supérfluas e luxuosas confundem-se com demandas vitais a ponto de tornar um dispositivo pessoal capaz de armazenar mais canções do que é possível se ouvir na existência de um indivíduo tão ou mais necessário do que um marcapasso ou um sensor preciso que alerte para tsunamis ou terremotos iminentes.
Do ponto de vista predominantemente cultural, a objetivação material transferida à figura humana reflete-se no exacerbado culto à celebridade. Padrões de comportamento associados à crescente reificação do espírito são periodicamente moldados em velocidade vertiginosa e de maneira mais variada que em séculos anteriores. O conflito de gerações, uma vez entendida como a “subversão de costumes”, fornece hoje diferentes painéis, em que progenitores confrontam valores burgueses tradicionais a serem transferidos (família, honestidade fiduciária etc.) com modelos globalizados de conduta. Por outro lado, os filhos de hoje têm formação ambígua. Uma parte é globalizante e detentora de uma compreensão mais ampla devido à abundância de oferta de informação. A outra parte é extremamente individualista, convertida em bem de troca por capital na forma da reivindicação de “inclusão social”, embandeirada em diversas identidades.
Com efeito, os indivíduos hoje são mais que o funcionário de identidade apagada que trabalha maquinalmente. Eles são também as próprias peças motoras e, como tais, marcadas ou identificadas para que a grande engrenagem do capital funcione. A natureza de engrenagem faz que umas peças se subordinem a outras. As múltiplas espirais de reivindicação identitária que emanam do indivíduo contemporâneo reproduzem essa configuração de engrenagem, em que uma “peça” ou indivíduo reflete ou almeja a identidade de “peças” ou indivíduos que lhe são superiores.

Narre aqui também seu primeiro porre...