domingo, 4 de abril de 2010
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Estertores
Estertores
Explore as paragens das coisas vãs
das facas trespassadas que não matam
das almas inocentes que se vão
das chagas sentenciosas que saram...
Perceba que a desditosa ronda
a paz convoluta do trabalhador,
e ao artista rende a serena revolta.
Mas que isto conforta todas as dores...
Escrever é cavoucar voz-imagem
de tempo e espaço irreconciliáveis.
É unir pólos iguais de mesmo ímã.
Junte vida e morte numa só viagem,
cunhe moeda de uma só face
Explore as paragens das coisas vãs
das facas trespassadas que não matam
das almas inocentes que se vão
das chagas sentenciosas que saram...
Perceba que a desditosa ronda
a paz convoluta do trabalhador,
e ao artista rende a serena revolta.
Mas que isto conforta todas as dores...
Escrever é cavoucar voz-imagem
de tempo e espaço irreconciliáveis.
É unir pólos iguais de mesmo ímã.
Junte vida e morte numa só viagem,
cunhe moeda de uma só face
a brilhar sob sóis e luas: minha sina!
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
A infiltração da ideologia
Há tanto ou mais ideologia no ato de acessar a rede mundial de computadores ou “curtir um iPod” quanto no ato de pegar em armas para lutar pelo que se acreditava há cinquenta anos. A aparente diferença no radicalismo nos gestos e atitudes que pautam essas diferentes formas de se expressar ideologicamente ao longo de meio século se explica menos pela mudança na cosmovisão veiculada por doutrinas do que por transformações na intensidade e no ritmo com que o sistema econômico vigente exerce domínio sobre nossas vidas.
Quando vivíamos atmosferas políticas de polaridades e posicionamentos mais claros há algumas décadas, havia sempre a figura do “outro” utópico ou inimigo pairando em nossos cotidianos e em nosso imaginário. Tanto na vida como na arte, havia tinta, espaço e tempo definidos para conceber heróis e vilões extremados e realidades que a visão científica eufórica da época permitia projetar. Essas definições começaram a se dissolver mais completamente no final dos anos 1980 como consequência da entrada em um estágio globalizante do capital administrado. Como verificamos essas transformações?
Primeiramente, pela observação de que hoje as grandes decisões e políticas se fazem por temas e não mais por regiões. Isso também se relaciona com: a aceleração nas transmigrações de culturas, que diminuíram a importância das circunscrições geográficas; com a expansão do acesso a bens materiais que, sendo bastante desigual no contexto da globalização econômica, propiciou maior reivindicação social por parte dos menos favorecidos economicamente; e com a reafirmação e as conquistas de identidades culturais, efeito da sinergia entre as duas situações anteriores.
Em segundo lugar, a abolição de todos os limites e fronteiras, das geográficas à moda das calças sem cós e cintura, significou também a troca de culturas e corpos por um espaço ao sol no mundo da inclusão global das novidades tecnológicas dos prefixos vocalizados da informática (@, e-, i etc). Isso transportou parte da batalha ideológica contemporânea para os restritos ambientes dos que têm acesso à nova tecnologia da informação. A nova guerra ideológica, nano ou virtual, iniciou-se quando espertamente o capitalismo engendrou os mesmos mecanismos reivindicatórios dos excluídos para embandeirar o acesso aos novos bens gerados dentro de seu sistema. Dentre esses bens, o próprio o corpo humano ou partes dele. Ou seja, com as novas tecnologias, foram se forjando novas necessidades e fetiches sem os quais o indivíduo se cria alienado da vida globalizada.
Finalmente, o fato de as identidades culturais se mostrarem hoje tão à baila, reificadas ou não, não diminuiu a intolerância ou o preconceito. Apenas os tornou “não politicamente corretos”. No entanto, a “institucionalização” da discriminação continua patente no acesso restringido à educação e tecnologia da informação, por exemplo. E a atual confusão e sobreposição de antigas dicotomias como liberal/conservador, direita/esquerda, reacionário/revolucionário, bem/mal, se devem a essa imersão e diluição da ideologia nas coisas e no cotidiano do capital informatizado. Elas provocaram o rompimento de barreiras e hierarquias. Mas transformaram o ser em uma porção digitalizada amorfa que somente se recompõe nos restritos ambientes virtuais.
Quando vivíamos atmosferas políticas de polaridades e posicionamentos mais claros há algumas décadas, havia sempre a figura do “outro” utópico ou inimigo pairando em nossos cotidianos e em nosso imaginário. Tanto na vida como na arte, havia tinta, espaço e tempo definidos para conceber heróis e vilões extremados e realidades que a visão científica eufórica da época permitia projetar. Essas definições começaram a se dissolver mais completamente no final dos anos 1980 como consequência da entrada em um estágio globalizante do capital administrado. Como verificamos essas transformações?
Primeiramente, pela observação de que hoje as grandes decisões e políticas se fazem por temas e não mais por regiões. Isso também se relaciona com: a aceleração nas transmigrações de culturas, que diminuíram a importância das circunscrições geográficas; com a expansão do acesso a bens materiais que, sendo bastante desigual no contexto da globalização econômica, propiciou maior reivindicação social por parte dos menos favorecidos economicamente; e com a reafirmação e as conquistas de identidades culturais, efeito da sinergia entre as duas situações anteriores.
Em segundo lugar, a abolição de todos os limites e fronteiras, das geográficas à moda das calças sem cós e cintura, significou também a troca de culturas e corpos por um espaço ao sol no mundo da inclusão global das novidades tecnológicas dos prefixos vocalizados da informática (@, e-, i etc). Isso transportou parte da batalha ideológica contemporânea para os restritos ambientes dos que têm acesso à nova tecnologia da informação. A nova guerra ideológica, nano ou virtual, iniciou-se quando espertamente o capitalismo engendrou os mesmos mecanismos reivindicatórios dos excluídos para embandeirar o acesso aos novos bens gerados dentro de seu sistema. Dentre esses bens, o próprio o corpo humano ou partes dele. Ou seja, com as novas tecnologias, foram se forjando novas necessidades e fetiches sem os quais o indivíduo se cria alienado da vida globalizada.
Finalmente, o fato de as identidades culturais se mostrarem hoje tão à baila, reificadas ou não, não diminuiu a intolerância ou o preconceito. Apenas os tornou “não politicamente corretos”. No entanto, a “institucionalização” da discriminação continua patente no acesso restringido à educação e tecnologia da informação, por exemplo. E a atual confusão e sobreposição de antigas dicotomias como liberal/conservador, direita/esquerda, reacionário/revolucionário, bem/mal, se devem a essa imersão e diluição da ideologia nas coisas e no cotidiano do capital informatizado. Elas provocaram o rompimento de barreiras e hierarquias. Mas transformaram o ser em uma porção digitalizada amorfa que somente se recompõe nos restritos ambientes virtuais.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
Os sucessos da inclusão "capital"
Os sucessos da inclusão "capital"
Vem da década de 1960, de críticos lúcidos do processo capitalista de exclusão social, como Sartre e Fanon, por exemplo, a questão da “inclusão social sem inclusão cultural”, hoje muito rediscutida. Ocorre que ambas “inclusões” são atualmente a mesma coisa lastreada pelo capital e mediada por novos e abundantes recursos materiais e tecnológicos.
Todas as áreas e lugares da vida, das reivindicações sociais das minorias mais apagadas do cenário social à Ecologia, têm seu quinhão a cobrar do meio produtivo-tecnológico contemporâneo: é o resultado da explosão de bens gerados nesse sistema, o que desbastou a burguesia de seus privilégios tradicionais e espalhou para as camadas sociais concêntricas formas novas de usufruto. Assim, exigências supérfluas e luxuosas confundem-se com demandas vitais a ponto de tornar um dispositivo pessoal capaz de armazenar mais canções do que é possível se ouvir na existência de um indivíduo tão ou mais necessário do que um marcapasso ou um sensor preciso que alerte para tsunamis ou terremotos iminentes.
Do ponto de vista predominantemente cultural, a objetivação material transferida à figura humana reflete-se no exacerbado culto à celebridade. Padrões de comportamento associados à crescente reificação do espírito são periodicamente moldados em velocidade vertiginosa e de maneira mais variada que em séculos anteriores. O conflito de gerações, uma vez entendida como a “subversão de costumes”, fornece hoje diferentes painéis, em que progenitores confrontam valores burgueses tradicionais a serem transferidos (família, honestidade fiduciária etc.) com modelos globalizados de conduta. Por outro lado, os filhos de hoje têm formação ambígua. Uma parte é globalizante e detentora de uma compreensão mais ampla devido à abundância de oferta de informação. A outra parte é extremamente individualista, convertida em bem de troca por capital na forma da reivindicação de “inclusão social”, embandeirada em diversas identidades.
Com efeito, os indivíduos hoje são mais que o funcionário de identidade apagada que trabalha maquinalmente. Eles são também as próprias peças motoras e, como tais, marcadas ou identificadas para que a grande engrenagem do capital funcione. A natureza de engrenagem faz que umas peças se subordinem a outras. As múltiplas espirais de reivindicação identitária que emanam do indivíduo contemporâneo reproduzem essa configuração de engrenagem, em que uma “peça” ou indivíduo reflete ou almeja a identidade de “peças” ou indivíduos que lhe são superiores.
Vem da década de 1960, de críticos lúcidos do processo capitalista de exclusão social, como Sartre e Fanon, por exemplo, a questão da “inclusão social sem inclusão cultural”, hoje muito rediscutida. Ocorre que ambas “inclusões” são atualmente a mesma coisa lastreada pelo capital e mediada por novos e abundantes recursos materiais e tecnológicos.
Todas as áreas e lugares da vida, das reivindicações sociais das minorias mais apagadas do cenário social à Ecologia, têm seu quinhão a cobrar do meio produtivo-tecnológico contemporâneo: é o resultado da explosão de bens gerados nesse sistema, o que desbastou a burguesia de seus privilégios tradicionais e espalhou para as camadas sociais concêntricas formas novas de usufruto. Assim, exigências supérfluas e luxuosas confundem-se com demandas vitais a ponto de tornar um dispositivo pessoal capaz de armazenar mais canções do que é possível se ouvir na existência de um indivíduo tão ou mais necessário do que um marcapasso ou um sensor preciso que alerte para tsunamis ou terremotos iminentes.
Do ponto de vista predominantemente cultural, a objetivação material transferida à figura humana reflete-se no exacerbado culto à celebridade. Padrões de comportamento associados à crescente reificação do espírito são periodicamente moldados em velocidade vertiginosa e de maneira mais variada que em séculos anteriores. O conflito de gerações, uma vez entendida como a “subversão de costumes”, fornece hoje diferentes painéis, em que progenitores confrontam valores burgueses tradicionais a serem transferidos (família, honestidade fiduciária etc.) com modelos globalizados de conduta. Por outro lado, os filhos de hoje têm formação ambígua. Uma parte é globalizante e detentora de uma compreensão mais ampla devido à abundância de oferta de informação. A outra parte é extremamente individualista, convertida em bem de troca por capital na forma da reivindicação de “inclusão social”, embandeirada em diversas identidades.
Com efeito, os indivíduos hoje são mais que o funcionário de identidade apagada que trabalha maquinalmente. Eles são também as próprias peças motoras e, como tais, marcadas ou identificadas para que a grande engrenagem do capital funcione. A natureza de engrenagem faz que umas peças se subordinem a outras. As múltiplas espirais de reivindicação identitária que emanam do indivíduo contemporâneo reproduzem essa configuração de engrenagem, em que uma “peça” ou indivíduo reflete ou almeja a identidade de “peças” ou indivíduos que lhe são superiores.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Doze lições sobre o que é amar
Doze lições de quando amar é o que
I
narina abrir-se ao ar que
planta crescer ao sol que
peixe saltar n’água que
escassam
II
Quando sentir o que é amar,
gelar ventre que
palpitar seio que
tremer perna que
não se contêm
III
Quando tocar o que é amar,
morder leve a boca que
sorver doce a língua que
suar quente a pele que
são uma só
IV
Quando possuir o que amar
um cão fiel que
um anjo bom que
mão ao bolso que
guarda
V
Quando delirar de amar,
percorrer caminhos que
revolverem chãos que
caírem céus, luas que
se dissolvem
VI
Quando viver o que é amar,
aço erguer o que
flash flagrar o que
tatoo marcar o que
eterniza
VII
Quando saturar de amar
colorirem bolhas que
pulsarem estrelas que
romperem zíperes que
estouram
VIII
Quando acabar de amar
flor sem talo que
voz sem tom que
casa de barro que
extingue
IX
Quando perder o que amar
sumir uma peça que
eliminar membro que
partir uma vida que
faz falta
X
Quando sofrer por amar
apoiar em ombro que
rolar lágrima que
sair pra festa que
consola
XI
Quando enfim for isto que
faz dobrar sentidos que
subverte juízos que
traduz um pouco do que
é amar,
XII
É a hora em que,
surge um que
vem outro que
-sincero-
breve e alto
diz que
ecoa
“eu te amo!”
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